24/02/2007

Farinha Master

A efeméride do falecimento de Zeca Afonso leva-me a outra, recentemente lembrada pelo jornalista António Pires no seu excelente blogue http://raizeseantenas.blogspot.com/ (post de 9 de Fevereiro 2007, Cromo XII.4).
Menos universal mas mais controversial, o músico e performer Farinha Master (verdadeiro nome Carlos Cordeiro) deixou-nos há 5 anos. Recitando as palavras de homenagem de António Pires: "Os seus concertos eram uma surpresa constante. Neles poder-se-ia ouvir fado mutante em electrónica lo-fi, poesia concreta transmutada em hard rock manhoso, música minimal-repetitiva passada por uma peneira minhota."
O seu projecto mais lendário, os "Ocaso Épico", ficou registado em vinil no álbum "Muito Obrigado" (1988).
Conheci o Farinha em finais de 1988, quando eu estava a tocar como acordeonista no "Café Paris" em Sintra, no ano a seguir fiz parte da sua banda.
Participámos num dos últimos concertos no Rock Rendez Vous, um pequeno festival na época de Natal '88, (com bandas como Requiem pelos Vivos, Ik Mux e Ritual Tejo). A festa começou com muito atraso, já depois da meia noite, por causa do soundcheck. Tivemos a sorte de ser a primeira banda a tocar e Farinha abriu o concerto, pendurado numa viga, com as palavras: "Boa noite, nós vamos tocar 14 músicas!", levando ao desespero as outras quatro bandas..... Tipicamente Farinha, como também foi típica a nossa entrada numa emissão RTP em directo do programa "Tempos Modernos": Farinha levou para o estúdio um carregamento de utensílios agrícolas para tocar "rock rural", gozando assim com o playback obrigatório.
Em 1993 participei com ele no concurso de versões de músicas de Zeca Afonso "Filhos da Madrugada". A nossa versão tribal de "Vai Maria vai" (inspirado na música étnica no filme "The Sheltering Sky" de Bernardo Bertolucci, baseado no livro de Paul Bowles) não foi seleccionada, mas foi usada como banda sonora numa peça de teatro a solo: "As Bruxas" pela actriz Helena Flôr Dias. No dia 21 de Junho 1999 assistimos (eu, Farinha e Luís, o companheiro no seu último projecto músical "Angra do Budismo") à peça no Espaço Moira no Chiado, foi uma noite tórrida durante as Festas da Cidade. Antes do espectáculo começar, a operadora de som fez a gracinha de colocar as colunas na janela aberta no 1º andar. Quando nós subimos a Rua Garrett, já de longe se ouvia a música "Vai Maria vai" na nossa versão. Acho que Farinha ficou contente com isso, embora o estrelato artístico lhe fosse completamente alheio.
Depois perdi o contacto com ele até saber do seu desaparecimento em 2002.
Neste momento, com a ajuda de Helena Flôr Dias, estou a tentar recuperar o CD com a banda sonora daquela peça (incluindo a versão de "Vai Maria vai"), pois existe uma ideia de fazer uma compilação das gravações não editadas do Farinha.
Nessa altura vou pedir aos meus co-bloguistas como meter isto no Podcast do blogue, nestas coisas ainda sou neófito...

3 comentários:

a_cabra disse...

não faço a mais pequena ideia do que seja Podcast... mas quando aprenderes ensina... a malta gosta é de podcastar :-) e viva o zeca

António Pires disse...

Olá Rini (e os outros dois)!

Obrigado pela citação... Serás (serão) sempre bem-vindos na minha humilde casa... E muitos parabéns pelo vosso excelente blog. Também já está minha lista de links...

Abraços

Rini Luyks disse...

A versão "Vai Maria vai" no soundcloud:
https://soundcloud.com/rini-luyks/01-vai-maria-vai-vers-o-1